terça-feira, 31 de março de 2009

Gandhi na África e a luta popular via Satyagraha

Gandhi sendo confrontado por um policial ao liderar os mineradores hindus em greve de Newcastle ao Transvaal em protesto contra o "Ato da Imigração" em 1913.




A maior rede de TV do Brasil investe novamente numa novela que mostra a cultura alheia como uma grande maravilha do mundo, é a novela das oito “Caminho das índias”. No que pese ser legítimo dizer que a cultura indiana é deveras interessante e o elenco é formado de profissionais experientes e talentosos, nunca é pouco alertar para as distorções contidas na forma de “contar a história”. Preocupei-me em construir algumas linhas sobre o assunto porque daqui poucos dias o mundo (com muita justeza) vai rememorar o aniversario de nascimento de Mohandas Karamchand Gandhi, o Mahatma Gandhi. Mesmo que a citada novela ainda não tenha abordado o tema, me adianto para blindar a história contra as fantasiosas distorções aburguesadas da Rede Globo e retomo a passagem de Gandhi pela África. Quero lhes mostrar um Gandhi que é rebelde, radical, lutador e progressista para o seu tempo.

Era 2 de outubro de 1869 (a 140 anos atrás) quando nasce na Índia ocidental o Gandhi. Pouco mais de duas décadas depois ele se forma em Direito em Londres. Quando volta a Índia e tenta exercer a profissão. Sua mãe já é falecida e Gandhi não tem sucesso como advogado. Algumas fontes atribuem seu insucesso a uma timidez, que em minha opinião não tem fundamento, pois o mesmo se revela militante político em condições muito adversas onde os tímidos não têm vez. Logo que percebeu não ter êxito profissional na Índia, foi pela primeira vez à áfrica do Sul a mando de uma firma na qual trabalhava. Foi nessa primeira ida à áfrica do sul onde Gandhi provou o amargo da discriminação e foi exercendo a sua profissão que ele ganhou notoriedade e se estabeleceu na África por praticamente 20 anos. Era o Gandhi agora um hindu na áfrica da discriminação em luta contra a injustiça.

Em 1897 Gandhi traz para a áfrica esposa e filhos e é espancado logo na chegada por um grupo de brancos. Alem de ameaças e violência, os clientes de Gandhi eram ameaçados também para que o mesmo não tivesse serviço. Em 1906 Gandhi e outros hindus lideram um grande movimento que desembocaria em vários e fortes movimentos grevistas, quando orientavam o povo hindu na África do Sul a não se registrar (ordem dada pelo governo para aprimorar instrumentos totalitários de discriminação branca contra os hindus e outras minorias trabalhadoras). Simplesmente negar-se a se registrar foi a forma de luta mais coerente, pois alem das graves, como por exemplo, uma ação violenta das massas discriminadas era impossível visto que os hindus não tinham armas nem influência internacional (a nação indiana mesmo, vivia sob julgo colonial inglês). Essa era a Satyagraha (força da verdade), técnica que implicava simplesmente em não obedecer e ponto final. Dessa grande primeira experiência de luta em massa Gandhi saiu preso mais uma vez.

O movimento de luta pelos direitos hindu na África do Sul cresceu muito e Gandhi amadurecia fiel a valores que trazia do berço e a sua consciência social. Marcadamente, Gandhi conduz esse momento da sua vida numa estrada justamente dialética de luta pela paz e paz para luta. Estando na áfrica, vivendo sob dura perseguição, correndo muitas vezes risco de vida e sucessivas prisões, Gandhi publicou um jornal político chamado “Opinião Indiana” onde agregava Hindus na áfrica em torno de bandeiras não discriminatórias e auto-afirmativa. Em 1913 Gandhi lidera uma onda de greves gigantesca que termina lhe rendendo mais uma prisão e condenação a trabalhos forçados. A soltura de Gandhi mobilizou diversos seguimentos, inclusive missionários cristãos.

Gandhi volta à índia em 1915 para organizar novas e grandes greves contra os exploradores ingleses. Mas deixa várias vitórias na África do Sul na luta contra a discriminação. Um exemplo das conquistas do Satyagraha e das greves foi o reconhecimento de casamentos, fossem eles realizados em qualquer religião, coisa que antes das lutas radicais lideradas por Gandhi não era permitido. Talvez o maior legado de todos seja a herança de luta abnegada e radical de Gandhi, unindo pessoas e permanecendo fiel aos seus ensinamentos de berço.

Vejam só com a imagem do Mahatma Gandhi é injustamente associada ao “pacifista” permissivo e sem espírito de luta... a idéia é associar Gandhi a um modelo católico conservador bem europeu ou um sonhador metido a ‘pop star’ como gostam os brancos protestantes americanos. O que as elites nunca vão encorajar é que Gandhi foi por muitos anos um homem de luta dos mais radicais.
A passagem de Gandhi pela áfrica mostra que este personagem valioso da história dos povos era forte e valente, lutador e político, agitador e pensador militante de causas humanísticas com uma rebeldia incontrolável.

Como sei que todos gostam dessas frases “celebres ditas por gente célebre”, vejam esses trechos de depoimentos e escritos de Gandhi:


“Minha devoção à verdade empurrou-me para a política; e posso dizer, sem a mínima hesitação, e também com toda a humildade que, não entendem nada de religião aqueles que afirmam que ela nada tem a ver com a política.”


“Não-violência não quer dizer renúncia a toda forma de luta contra o mal. Pelo contrário. A não-violência, pelo menos como eu a concebo, é uma luta ainda mais ativa e real que a própria lei do talião - mas em plano moral.”


“A não-violência não pode ser definida como um método passivo ou inativo. É um movimento bem mais ativo que outros e exige o uso das armas. A verdade e a não-violência são, talvez, as forças mais ativas de que o mundo dispõe.”


“Aquele que não é capaz de governar a si mesmo, não será capaz de governar os outros.”
“Odeio o privilégio e o monopólio. Para mim, tudo o que não pode ser dividido com as multidões é "tabu".”


“A desobediência civil é um direito intrínseco do cidadão. Não ouse renunciar, se não quer deixar de ser homem. A desobediência civil nunca é seguida pela anarquia. Só a desobediência criminal com a força. Reprimir a desobediência civil é tentar encarcerar a consciência.”
“Todo aquele que possui coisas de que não precisa é um ladrão.”


“O meu patriotismo não é exclusivo. Engloba tudo. Eu repudiaria o patriotismo que procurasse apoio na miséria ou na exploração de outras nações. O patriotismo que eu concebo não vale nada se não se conciliar sempre, sem exceções, com o maior bem e a paz de toda a humanidade.”

3 comentários:

Rondiney/pós-Barras disse...

Professor parabéns , ótimo texto! A verdade é que muitos líderes são mascarados , na tentativa de diminuir seus feitos, ou a repressão alheia!

Evaldo Lima disse...

Professor Elton, parabéns pelo Blog.


Passerei a acompanhá-lo como referência crítica necessária na cultura da blgsfera.

A autora da novela já cometeu barbaridades com a religião e cultura islãmica em um folhetim anterior e agora nos assombra com os caminhos da Índia. A leitura desse texto nos "blinda" ca fantasia novelesca.

Abraço

Fran B. disse...

uito original, e me ajudou muito no meu trabalho para religião, obrigada!

Contatos Imediatos...

Para falar com o professor Elton Arruda, além do espaço para comentários desse Blog, é possível ligar para (086)99943652
No End. Eletronico: eltonarruda@hotmail.com ... Também estou no Face com 'Elton Arruda Elton Arruda' e no Twitter com 'ProfessorElton'
Vamos trocar ideias...